Caras pessoas da empresa Comboios de Portugal, foi ao
reparar nos repetitivos cartazes, a anunciar repetitivas greves, que eu me decidi
por escrever esta carta. Em especial um chamou-me a atenção, esse cartaz em
particular falava do alargamento da greve para os próximos dias, mas o que me
chamou a atenção foi o que um cidadão indignado escreveu por cima. Em frente à palavra
“greve” ele escreveu reaccionária. Depois, no meio da folha A4 que anunciava os
dias da greve, foi escrito a seguinte frase: “A CP faz greve para chamar a
atenção dos ricos, mas os pobres é que pagam”.
Ora, eu não subscreveria esta afirmação por completo, afinal
os ricos também sofrem com isto. Basta pensar que com a greve, este nicho da
população (cerca de 8%) tem pela frente mais engarrafamentos e mais noticias “aborrecidas”
sobre esta temática que lhes é alheia. Por outro lado, as pessoas a quem querem
fazer chegar esta greve (políticos), têm uma sensibilidade social igual à de um
urso pardo que passou duas semanas sem comer. Por esta razão, era de pensar que
além da população que utiliza estes transportes, também vocês (que perdem dias
de salário) saíssem prejudicados com esta insensibilidade.
No entanto, parece-me que a maior dose de insensibilidade
social parte de vocês. Se não vejamos, segundo apurei os trabalhadores da vossa
empresa descontam regularmente para o sindicato, o que faz que nestas alturas
os dias de trabalho “gazeteiros” sejam cobertos pelo fundo do sindicato. Sendo
assim, vocês gozam os dias de férias que o governo tira ao resto da função
pública.
Poderemos agora falar nas vossas razões, que as hão de ter
e, possivelmente, escritas em acta. O problema aqui é que ter razões numa
empresa mal gerida há tantos anos e que, encabeça a lista de empresas públicas
que dão maiores prejuízos ao país, é algo pouco sensato. Principalmente na
maneira como procuraram chamar a atenção para essas razões. A verdade é que a
greve não vai fazer a empresa lucrar mais e, pior que isso, compramos títulos de
transporte mensais, não podendo usufruir da qualidade e pontualidade do
transporte.
“Deixe o carro em casa e venha de comboio”, parece-me uma
frase bonita, colada em muitos dos vossos transportes. Torna-se algo ridícula em
alturas destas não acham?
Obviamente, não vos tiro o direito à greve, só acho que um
pouco de sensatez cai bem em qualquer cabeça. Como os meus pais me ensinaram “A
nossa liberdade acabam onde começa a liberdade dos outros”. Isto significa que
talvez haja outras maneiras mais eficazes de serem ouvidos sem provocarem este
caos nas classes que nada podem fazer para vos ajudar. Não me parece que
prejudicando os estudantes universitários, idosos que se deslocam a consultas
médicas, ou trabalhadores da mesma função pública que vos acolhe, se vão fazer
ouvir e resolver os vossos problemas.
Compreendo a insatisfação com o corte nas remunerações, o
alargamento do período de trabalho e a falta de pagamento das horas
extraordinárias. Porém, se reagíssemos todos como vocês, e muita gente se queixa
do mesmo, o país parava.
Quando um país se sente tão à beira do precipício, o melhor
é puxá-lo para cá e não desequilibrá-lo ainda mais.
Sem mais de momento,
N.P.